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sábado, 25 de março de 2017

Museu de histórias catadas

 MUSEU DE HISTÓRIAS CATADAS

            (Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

                        A gaiola aprisiona o pássaro, mas não o seu canto.
                        (Sérgio Palmiro Serrano. O catador de histórias).

            Sérgio Serrano é autor de “O catador de histórias” (Ed. Evoluir, 2016). O livro recebeu bonitas ilustrações de Ágatha Kretli. Sérgio é bem conhecido do público infantil por seu programa “Baú de histórias” na TV Cultura. Além de contador de histórias, é ator, bonequeiro, músico e “inventeiro”. Iniciou a carreira profissional na área do desenho gráfico, produzindo para jornais e revistas, depois passou a ilustrar livros para crianças. Mais tarde descobriu o teatro e viu que poderia reunir as coisas que ama: histórias, música, desenho e teatro de fantoches. Desenvolve o projeto “Baú na mala” com sua mulher, Cris Miguel.  Com esse projeto, já viajou por muitos lugares no Brasil. Em 2012, foi a Zagreb, na Croácia, e apresentou o espetáculo “Baú de histórias nos Balcans”. Esse trabalho recebeu o Prêmio Zagreb 2012.  A apresentação ocorreu no teatro e na praça da cidade.  Aprendeu a cantar e dialogar na língua croata e encantou as crianças presentes que interagiram com a dupla de múltiplos talentos.

            Voltemos ao livro. “O catador de histórias” não é autobiográfico, mas contém façanhas próprias de um bom contador de histórias, como é o caso de Sérgio Serrano. O personagem principal é Crispim, um menino da roça que gostava de histórias. De tanto ler histórias, resolveu também inventar as suas. Quando terminava a lida no campo – plantar milho e feijão – reunia os amigos e contava lendas, fábulas, contos de reis, príncipes e princesas.   O lugar onde morava era muito pobre.  Um dia, já mais taludinho, decidiu partir para a cidade grande. Na mochila, levava pouca coisa: alguma roupa e um telefone celular. A viagem de ônibus foi longa. Viu a vegetação mudar de cor: milharal, pasto, cana-de-açúcar. Às vezes a paisagem era verde, outras vezes cinzenta. Enfim, chegou a cidade grande. Ficou deslumbrado com tanta gente, muitos carros, ônibus, metrô, coisa que ele desconhecia.   Na rodoviária, olhava com ar de espanto.  Foi logo percebido por um trombadinha. E zás, lá se foi sua mochila com tudo que tinha dentro.  O principal era o celular, havia também algum dinheiro trocado.

            Sem dinheiro, sem telefone para avisar a família do roubo da mochila, foi viver na rua. Dormia nas calçadas com outros mendigos, mas conseguiu conviver em paz com os companheiros noturnos. Resolveu catar lixo e começou a descobrir que as pessoas jogavam fora certas coisas preciosas: como livro inteirinho com autógrafo do autor, roupas que ainda tinham serventia, sapatos. Foi juntando descartes de lixo que arrumou um carrinho de mão e começou a construir uma casa improvisada com as quinquilharias adquiridas.  Depois de certo tempo, conseguiu formar uma pequena biblioteca, uma biblioteca ambulante.  

               Vamos examinar algumas preciosidades encontradas na rua por Crispim: um buquê de noiva novinho, com todas as flores.  Será que o casamento aconteceu mesmo ou o buquê foi descartado pela noiva chorosa com o casamento desfeito? Um retrato bem antigo de alguém que veio de outro país, já devia ter morrido há bastante tempo. A família do falecido achou que o retrato não tinha mais serventia. Destino: lixo.  Até um diário de uma menina que gostava de escrever apareceu um dia nas suas recolhas.  Encontrou uma gaiola de passarinho, naturalmente sem nada dentro, isto é, sem passarinho.  Passarinho esperto, fugiu da prisão.  Descobriu que dentro da gaiola havia um papelzinho dobrado, abriu e leu essa mensagem: “A gaiola aprisiona o pássaro, mas não o seu canto”. Quanta sabedoria em uma simples frase!

            A casa–museu-biblioteca de Crispim começou a atrair a atenção das pessoas. Parava a sua carrocinha em uma praça qualquer, debaixo de uma sombra, e começava a contar histórias para crianças, velhos, adultos. Lembrou-se do tempo em que morava no sítio e tornou-se o contador de histórias do bairro onde morava. Certo dia, teve uma surpresa, encontrou num monte de caixas alguma coisa há muito desejada. O que seria? Leia a história para saber, não vou dizer; É segredo que só a leitura do livro revela.
          
            Essa história tem alguma semelhança com “Hortência das tranças”, contada por Lélis e que reproduzi em “Autores e livros em contraponto”. Aqui, como no livro de Lélis, recriei algumas coisas. A história é tão cativante que me levou a participar colocando coisas que apenas estavam sugeridas. Tanto na história de Crispim como na de Hortência, sente-se a presença da teatralidade. São textos que se prestam muito bem para o teatro.
 
 . Não poderia deixar de fazer referências às ilustrações de Ágatha Kretli. A ilustradora é mineira de Teófilo Otoni e fez Faculdade de Design Gráfico pela Universidade do Vale do Rio Doce. Gosta de pintar e bordar. As ilustrações desse livro reúne a técnica da pintura com o bordado.

Ia me esquecendo, mas ainda há tempo para informar. Todo bom carroceiro tem a companhia de um vira-lata. Pois bem, numa noite de chuva apareceu na carrocinha de Crispim um cachorro todo molhado, estava fugindo da chuva. Crispim deu um pouco de sua comida para o cachorro.  A partir daquela noite nasceu uma grande amizade entre Crispim e Pandi, assim foi denominado o bichinho sem dono. Juntos viveram muitas aventuras.



            NOTAS LITERÁRIAS E CULTURAIS

Notícias 10 

O  Boletim da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (outubro de 2016) traz um dossiê sobre o escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Compreende uma entrevista concedida pelo escritor a Márcio Vassalo em 2003, durante a realização do 5º. Salão do Livro, no Rio de Janeiro e a última palestra proferida por esse escritor em 2011, por ocasião da 13º Salão FNLIJ para Crianças e Jovens. Bartolomeu discorreu sobre livros e o papel do professor na escola. Pinçamos dois fragmentos dessa palestra que transcrevemos a seguir.
Sobre livros:

“Os livros parecem com as pessoas que amamos. Às vezes quando acabamos de ler um livro pensamos: não era eu que devia ler esse livro, mas fulano de tal. Eu faço isso com os amigos meus; eu acabo de ler um livro e telefono para um amigo em outra distância e digo: leia isso, por favor. E eles fazem o mesmo comigo. É aquele livro que não cabe em mim, que eu relaciono com outra pessoa. Então o dia que você ler um livro e pensar que quem devia lê-lo é o seu aluno, leve esse livro para a sala e leia para seu aluno, esse você vai saber ler. A literatura está na ordem do afeto. O próprio escritor quando escreve, está fazendo o melhor dele. Eu vou fazer o melhor de mim, e por que eu vou fazer o melhor de mim? Para quando o outro me ler, gostar mais de mim.”
Sobre o professor:

“Professor é aquele que professa uma crença, que tem um desejo a realizar. Na medida em que nós nos tornamos o desejo de um certo sistema, nós não somos mais professores. Na medida em que eu sou apenas um intermediário entre o desejo de uma classe e o aluno, eu não sou mais professor. Porque o professor também precisa de liberdade, A primeira coisa que eu perguntaria a um professor em uma escola se eu fosse o diretor é: o que você gostaria de ensinar aqui? Porque eu tenho que acreditar que o professor tem o que dizer. Na medida em que eu elimino a voz dele e quero que ele faça o que eu digo, ele já não é mais professor, ele perde a sua função.“
Bartolomeu Campos de Queirós está fazendo muito falta à educação brasileira. Era um sonhador, um idealista. Sua ausência dói como um retrato na parede de alguém muito querido que  partiu antes do tempo. SAUDADES.

( Publicado no jornal “Contraponto”janeiro de 2017)


domingo, 29 de janeiro de 2017

Ângela-lago: poesia e flores

Ângela – lago: poesia e flores
(Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

            Não te aflijas com a pétala que voa:
            também é ser deixar de ser assim.

            Rosas verás, só de cinza franzida,
            mortas intactas pelo teu jardim.  
            (Cecília Meireles. 4º. Motivo da Rosa).


Ângela-lago é escritora e ilustradora de livros infantis. Dedica-se também à tradução de poesia, já traduziu Rainer Maria Rilke e Emily Dickinson. A convivência com a poesia desses dois grandes poetas foi muito benéfica, talvez tenha sido o estímulo que faltava para publicar “O caderno do jardineiro” (Ed. SM, 2016), seu primeiro livro de poesia. O livro traz ilustrações de flores de variados tipos: cipó-de-são-joão, sempre-viva, lírios, dente-de-leão, hortênsia, manacá. Muitas flores moram no seu jardim poético.

Há um poema que traz o mesmo título do livro, versa sobre o trabalho do jardineiro e a transformação da semente. Sente-se a passagem do tempo – preparar a terra, semear e ver brotar a flor que depois se esvai, morre. Efêmera como a própria vida. 

arar o solo a argila o colo
arejar a terra escura
nesse piso a semente se costura
e, ausente, se desenha a antiga flor
o mesmo aviso de cor
que logo se aniquila.

A primeira estrofe do poema “lírios” é uma intertextualidade de modo invertido com o texto bíblico de São Mateus (6:28). Comparemos:

lírios não fiam
nem tecem
nem Salomão no seu fulgor
despiu-se como um deles

 O texto de São Mateus em prosa tem também um tom poético:  

Reparai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Ora eu vos digo que nem Salomão, em toda sua magnitude, se vestiu jamais como um deles.

A ilustração para este poema apresenta dois lírios: um vermelho e outro branco. E diz a poeta: “um escriba escreve branco/ esquecido da caridade do franco lírio vermelho”. Quando pensamos em lírios, nos vem logo à mente o lírio branco, mas encontramos outras cores de lírios na natureza: vermelho, amarelo, lilás.

Pássaros gostam de flores e a rosa que desabrocha no crepúsculo está atenta ao trinado de um sabiá ensandecido.
Para quem canta o sabiá?

canta para o crepúsculo, mas só a rosa atenta ouviu o seu trinado. 

As rosas são como um jardim secreto, suas pétalas têm mil e uma portas e ela esconde o que está lá dentro. O poema “jardim fechado” é bem representativo do segredo da rosa:

  que segredo esconde a rosa
com suas mil e uma portas
a velar e a nos negar seu centro?
o que ela esconde lá dentro
que nosso olhar não suporta?
ai, ardil
o dessa dona ciosa
que nos enreda em beleza
sendo ela mesma sua presa

Muitos outros poemas estão à espera do leitor. São vinte e seis, com ilustrações da própria autora. As ilustrações delicadas de flores, ramos e raízes condizem com a beleza das metáforas poéticas.  Os poemas são curtos e nos dão a sensação de “incompletude e transparência”.

 Que venham outros livros de poesia dessa incansável escritora e ilustradora. O caminho foi desvendado, a terra está bem arada, há flores no jardim, resta apenas cultivá-las e transformá-las em poemas.

Livro:

ODE DE ANA MARIA. Simão Farias Almeida. João Pessoa: Ideia Editora, 2016.

Lançado no fim de 2016, em Boa Vista (Roraima), “Ode de Ana Maria” é o primeiro romance de Simão Farias Almeida.  Pela editora Ideia, Simão já publicou vários livros: “Monteiro Lobato e a problemática da nação: um projeto dialógico e negociado” (2011) “O jornalista Monteiro Lobato na nação moderna: mediações polêmicas e teses jornalísticas” (2013). Na área da ficção, infantojuvenil, “Memórias de voos rasos e gravidades: trailler ambiental” (2016).  O livro recebeu bonitas ilustrações de Jorge Trujillo e já se sentia a preocupação com o meio ambiente, daí o subtítulo “trailler ambiental”. “Ode de Ana Maria” (2016) é o primeiro romance.

A leitura dos primeiros capítulos de “Ode de Ana Maria” leva o leitor a pensar que se trata de um romance sobre problemas ligados à terra, aos operários de uma fábrica e aos índios, mas descortinamos, mais uma vez, a presença do meio ambiente. Ana Maria, a protagonista, luta pela conquista de um pedaço de terra que o patrão ambicioso e sanguinário lhe nega. No meio desse ambiente de poderosos que tudo pode, ocorre um desastre ambiental – a fábrica poluidora lança dejetos ofensivos à saúde no leito do rio. O mais interessante está reservado para o final do livro – quem conta toda a história é um pássaro papão de cauda “telética” que se esconde na voz do narrador.

Aspectos ligados ao meio ambiente aparecem com frequência nos textos de Simão Almeida. Eles estão presentes no livro teórico, quando analisou as teses polêmicas de Monteiro Lobato, no livro infantojuvenil, e agora no seu primeiro romance. Aguarda-se o lançamento deste livro em João Pessoa.


(Textos publicados no jornal “Contraponto”. Paraíba, 27 de janeiro de 2017).      

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

José Saramago e a literatura infantojuvenil

José Saramago e a literatura infantojuvenil

            E se as histórias para crianças passassem a ser obrigatória para os adultos. Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?
             (José Saramago)

            Quando contava onze anos, José Saramago ganhou de sua mãe o livro “O mistério do moinho”, de Joseph Jefferson Farjeon, autor inglês de romances policiais. Este livro pode não ter sido o texto que o encaminhou para a literatura, mas ficou gravado na mente do menino. Anos mais tarde relatou o fato como algo importante que aconteceu  na sua vida.   

  Antes de se tornar escritor, Saramago exerceu várias profissões: serralheiro mecânico, desenhista, funcionário da saúde e da previdência. Concluiu o curso secundário e fez cursos técnicos. As dificuldades financeiras da família não permitiram que prosseguisse nos estudos mais avançados, precisava trabalhar. Como não podia comprar livros, tornou-se um assíduo frequentador da Biblioteca Pública de Lisboa. Certamente, foi nesse ambiente povoado de livros que encontrou seu verdadeiro caminho.

Saramago escreveu inúmeros romances, diários, poesia, peças de teatro, contos, crônicas, livros de viagens, memórias. e literatura infantil.  Nesse rico universo literário, despontam três livros de literatura infantil: “A maior flor do mundo” (2001), “O silêncio da água” (2011) e “O lagarto” (2016). No Brasil, os três livros foram publicados pela Editora Companhia das Letrinhas.
  
Já apresentamos em nossa coluna os dois primeiros livros, resta-nos discorrer sobre “O lagarto”. O livro reúne as palavras de José Saramago às xilogravuras do ilustrador brasileiro J. Borges. Foi distinguido com o Selo Seleção Cátedra 10 (Qualidade em LIJ), da Cátedra UNESCO de Leitura da PUC – Rio. A escolha do Selo Cátedra é feita por um grupo de pesquisadores e especialistas na área de livros infantojuvenis. A seleção compreende os 10 livros de valor literário, plástico e editorial que mais se destacaram no ano. “O lagarto” foi um dos 10 livros selecionados.
            Este conto está inserido no livro de crônicas “A bagagem do viajante”. O texto foi resgatado pelos organizadores da obra do autor e virou livro infantil. É deleite para  crianças que gostam de histórias fantasiosas e para os adultos que gostam da prosa do escritor português.

A figura do lagarto está associada ao dragão, personagem mítico que habita os contos infantis. Nessa história, ele história aparece de forma inusitada no bairro do Chiado, um dos bairros mais conhecidos da cidade de Lisboa.  Naturalmente esse fato causou grande susto entre os “transeuntes”. Era um lagarto audacioso, enfrentava as pessoas e os automóveis. O medo foi generalizado e a rua ficou deserta. “O animal não se mexeu. Agitava devagar a cauda, erguia a cabeça triangular, farejando.”

Muitas coisas estranhas aconteceram - uma mulher foi hospitalizada tamanho foi o susto que levou ao avistar o animal. Veio ambulância, polícia, bombeiros, veio até uma esquadrilha de aviões.  É nesse ponto da história que surgem as fadas. O que aconteceu depois? Coisas misteriosas que só são reveladas aos leitores curiosos.

Alguns aspectos desse conto fantástico chamam a atenção do leitor e cito a riqueza da linguagem.  No primeiro parágrafo da história, o leitor se depara com o linguajar lusitano, rico em máximas e dizeres populares. Examine-se:

“De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isto de fadas foi chão que deu uvas, já ninguém acredita, e por mais que venha jurar e trejurar, o mais certo é rirem-se de mim. [...] Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará.”

O leitor brasileiro pode não usar essa linguagem – “isto de fadas foi chão que deu uvas” e “vá o barco à água, que o remo logo se arranjará”, mas, certamente, ficará encantado com essas expressões tão características do falar lusitano.

Outro aspecto relevante nesse conto está representado pelas expressivas ilustrações de J. Borges.  A ilustração do  dragão  toma a página inteira, às vezes é todo vermelho, outras vezes é preto. A boca está sempre aberta com dentes enormes. No Festival Internacional de Óbidos  (setembro de 2016), houve exposição dessas xilogravuras e das ilustrações de J. Borges.

            Saramago gostava muito do trabalho do xilógrafo pernambucano. Certa vez, referiu-se a J. Borges dessa maneira: “Borges compreende o mundo de forma aparentemente simples e ao mesmo tempo profunda.”   

O autor de “O lagarto” era também poeta e a história termina com  versos:
Calados, muitos recordam,
Na prosa das suas casas,
O lagarto que era rosa,
Aquela rosa com asas.

Lembrete:
Quem for a Lisboa não deixe de visitar a Casa dos Bicos, Memorial José Saramago. Está situada na rua  dos Bacalhoeiros, 8. Foi inaugurada em 2012. É um espaço utilizado para reuniões, recitais, conferências, seminários, exposições. A Fundação abriga uma exposição permanente “A Semente e os frutos” que reúne livros de Saramago, manuscritos do escritor, recortes de jornais, entrevistas, vídeos. Lá está instalado o escritório de Saramago com sua escrivaninha e objetos pessoais, como óculos, máquina de escrever. Os restos mortais do escritor estão sepultados ali, sob uma oliveira trazida de sua cidade natal, o vilarejo de Azinhaga. Ao lado de todo esse rico acervo, a Casa dos Bicos é uma obra de arte, com muita história. O edifício foi construído em 1523 por Brás de Albuquerque, após uma viagem que fez a Ferrara ( Itália). Inspirada no Palácio dos Diamantes tornou-se conhecida como  A Casa dos Bicos. 



domingo, 6 de novembro de 2016

            Macunaíma para jovens

                    
       Macunaíma é construído em uma espécie de colagem feita com mitos, folclore, histórias de origens variadas, superstições, provérbios, frases feitas, neologismos, palavras em tupi e anedotas que sintetizam o caráter de nosso povo e da nossa cultura.
(Sílvia Oberg)


Duas bonitas edições do livro “Macunaíma”, de Mário de Andrade, foram publicadas este ano (2016). “Macunaíma em quadrinhos” (Ed. Peirópolis), uma adaptação de Ângelo Abu e Dan X e “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” (Ed. FTD), texto integral, com ilustrações de Mariana Zanetti.  

“Macunaíma” foi publicado em 1928, no mesmo ano da publicação de “A bagaceira”, de José Américo de Almeida. Os dois livros se destacam no cenário da literatura brasileira pelo caráter inovador. “A bagaceira” foi obra introdutória do regionalismo nordestino do século XX.  “Macunaíma”, pela mistura de variadas referências culturais e reflexões sobre a realidade brasileira, despertou sempre a atenção dos críticos.  Em “A bagaceira”, vamos encontrar um repositório de termos regionais nordestinos; em “Macunaíma”,  há o predomínio de palavras de origem indígena (tupi).

“Macunaíma em quadrinhos” reúne dois grandes ilustradores brasileiros: Ângelo Abu e Dan X. O livro apresenta vários aspectos interessantes, um deles é o posfácio, em forma de quadrinhos. Nele, os ilustradores traçam um breve roteiro biográfico do trabalho artístico de cada um e chegam até à obra Macunaíma que já foi “engolida pelo domínio público”. 

Para Laudo Ferreira, leitor e quadrinista, o livro foi narrado e graficamente interpretado com o espírito das matas. Ressalta, ainda, as intertextualidades que os artistas utilizaram para adaptar a história/rapsódia. Neste livro, estão presentes: as pinturas das modernistas Anita Malfatti e Tarsila do Amaral, o cubisno de Picasso, os planos e perspectivas de Escher, a beleza das artes incas e das carrancas do rio São Francisco, culminando com “Mário na rede”, de Lasar Segall. A inovação prossegue. Mário de Andrade criou Macunaíma “herói de nossa gente”, como “preto retinto e filho do medo da noite”. Os adaptadores criaram um Macunaíma azul.

            A capa é toda ilustrada em vermelho e preto e apresenta muitos figurantes: índios, animais, monstros e alguns brancos. Bem no centro da capa, no meio do emaranhado de desenhos, aparece Mário de Andrade. Na contracapa, um índio conduz uma bela moça. No capítulo “Maioridade”, há reprodução da mesma cena e ficamos sabendo que se trata do índio Jiquiê conduzindo pela mão uma cunhã. Capa e contracapa proporcionam uma leitura rica e variada.  O texto original de “Macunaíma” contém dezessete capítulos. O texto adaptado apenas quatorze e um epilogo.

            “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” (Ed. FTD, 2016) é o texto integral da obra-prima de Mário de Andrade, considerada uma das obras mais significativas da literatura brasileira. São dezessete capítulos, mais o epílogo. O posfácio e as notas são de Noemi Jaffe que tem formação em Letras e foi professora durante vinte e cinco anos de Literatura Brasileira em São Paulo.   A capa e as ilustrações do livro são de Mariana Zanetti, arquiteta graduada pela FAUUSP. Zanetti já trabalhou com mobiliário, teatro, cinema, depois fez a opção por ilustração de livros.  Atualmente mora em Berlim. 

            Mário de Andrade se utilizou de muitos vocábulos de origem tupi e cada capítulo traz um glossário com explicações das palavras de origem indígena. Além do posfácio com o título “Pensamenteando sobre o herói de múltiplos caracteres”, o leitor ainda encontra “Notas” com explicações sobre cada capítulo, uma breve biografia de Mário de Andrade e a “Bibliografia” com as principais obras consultadas para a elaboração das notas. E foram muitos livros consultados.

            Para Noemi Jaffe, “Macunaíma” é um dos livros mais comentados, revirados e, também, incompreendidos da história da literatura brasileira.  Esta edição, com as explicações da ilustre professora, irá torná-lo “palatável” e deixará de ser incompreendido. O leitor jovem encontrará prazer na sua leitura que procura esclarecer muita coisa que antes estava encoberta.   

            Concluímos essas considerações com uma passagem do último capítulo do livro – “Ursa maior”:

            - Macunaíma!
            O dorminhoco nem se mexia.
            - Macunaíma! ôh Macunaíma!
            - Deixa a gente dormir, aruaí... 
            - Acorda, herói! É de-dia!
            - Ah... que preguiça! ...
            - Pouca saúde e muita saúva,
            Os males do Brasil são!...


            (Aruaí é uma espécie de papagaio, maritaca). 

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Intramuros: romance ou depoimento literário?

Intramuros: romance ou depoimento literário? 
            (Neide Medeiros Santos – Leitora votante FNLIJ/PB)


            Creio que o Intramuros pode ser catalogado como romance, mas, pra mim, tem mais a ver com um depoimento literário, digamos assim – um despretensioso relato de como a gente, se perdendo, vai se descobrindo no esforço de escrever um livro.  
                        (Lygia Bojunga).


            A escritora Lygia Bojunga Nunes não é a mais prolífera das escritoras de livros infantojuvenis do Brasil, mas, certamente, é uma das mais premiadas. Quase todos os seus livros receberam prêmios, sendo dois internacionais: a medalha Hans Christian Andersen (1980) e Astrid Lindgren Memorial Award, 2004 (ALMA). Este último foi criado pelo governo da Suécia e confere ao ganhador a soma de cinco milhões de coroas suecas, equivalente a quinhentos mil euros. O valor monetário desse prêmio é um dos mais altos da literatura.

 Com o dinheiro advindo desse prêmio, Lygia realizou um sonho há muito acalentado – a criação da “Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga” (FCCLB) que funciona no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa e no sítio Boa Liga, em Petrópolis.    A Fundação abriga a Editora Casa Lygia Bojunga Ltda. É voltada para projetos que despertem o desejo de ler através de variadas práticas de leitura. Existe também uma preocupação com problemas ligados à ecologia. O sítio Boa Liga, um espaço da Mata Atlântica, é a outra morada da Fundação. Nesse espaço bucólico, o Livro e a Natureza caminham juntos. A FCCLJ é mantida exclusivamente com os recursos do prêmio e a venda dos livros da autora. Os projetos são desenvolvidos no “Nicho”: Santa Teresa, Rio de Janeiro e no Sítio Boa Liga: Pedra do Rio, Petrópolis, RJ. Os projetos têm finalidades literárias, culturais e ecológicas.

 “Intramuros” (Rio de Janeiro: Editora Casa Lygia Bojunga, 2016) é o livro mais recente de Lygia Bojunga. É o vigésimo terceiro livro da escritora. Ela considera que escrever é “um caminho longo e tortuoso”, talvez, por isso, de forma reiterada, expressa em seus escritos problemas ligados ao ofício de escrever. Isso ocorreu, entre outros, com “Feito à Mão”, “Livro: um encontro com Lygia Bojunga Nunes” (texto teatral) e agora com “Intramuros”.

 O livro não está dividido em capítulos, mas há separações entre os textos que indicam cortes narrativos. Logo, nas primeiras páginas, a personagem Nicolina é apresentada pela narradora.   Dá a impressão de que será a condutora da trama, mas surgirão outras vozes.  Lygia foi artista de teatro e se utiliza de recursos cênicos para introduzir a sua personagem: “Ah! Se este espaço fosse um palco, eu não teria que ficar tão cheia de dedos pra te fazer um gesto e dizer, esta é Nicolina. E, pronto! ela entrava em cena e, num segundo, se revelava pra você. – na aparência, na expressão do rosto, no jeito de andar, de olhar, de sorrir. Mesmo que não dissesse uma só palavra, a presença dela já seria uma revelação” (p. 14). No decorrer da narrativa, Nicolina fala sobre sua infância, seu riso desmedido, suas atitudes que levavam as pessoas a pensar que era autista. De repente, um corte narrativo, a personagem desaparece.  Mas ela irá retornar em outras passagens do livro.

 Em outro momento, é a narradora, no caso a autora, que se apresenta. Nessa parte, o depoimento sobrepuja o romance.  Descreve certos locais de Londres, uma Londres pouco conhecida dos turistas: verdejante, romântica. Há trinta e quatro anos que Lygia passa parte de sua vida em Londres, outra no Rio de Janeiro. Todos os anos seu tempo é dividido – Rio/Londres E vem a descrição dos lugares que escolheu para morar com seu marido, Peter. Ela prefere livros a filmes, mas foi vendo um filme com o ator Alec Guiness que descobriu Hampstead Heath. Pegou um mapa, examinou bem o local e no outro dia foi descobrir que Hampstead Health era esse. As paisagens reveladas de vários locais londrinos levam o leitor a viajar na companhia de uma guia que conhece muito bem a cidade que escolheu para morar por alguns meses do ano.

 Vinícius, Rosário, Garibalde, Gari, Hortênsia são outras personagens que moram nesse livro cheio de diálogos. E Nicolina retorna com mais revelações sobre sua vida.  Nas últimas páginas, a autora fala sobre o seu fazer literário e explica como começou a sua paixão pelos livros. O início se deu com a leitura dos livros de Lobato. Enturmou-se com as personagens lobatianas. “Elegeu Emília como confidente e conselheira.” Tornou-se tão íntima de Lobato que escreveu uma carta chamando-o de “prezado colega”. Quando decidiu procurar outros sítios, já era leitora feita. “Daí pra querer escrever foi um pulo”.

Na adolescência, escreveu diários e mais diários; na escola, peças de teatro, representadas pelo grupo teatral que criou junto com colegas. Para ganhar algum dinheiro, escreveu para rádio, teatro e televisão. Ainda não tinha despertado para escrever um livro. Um dia, resolveu criar os primeiros moradores de uma casa chamada livro e surgiu “Os colegas”. A casa se tornou pequena e foram aparecendo outros moradores: Raquel, Angélica, Maria, Lucas, o amigo pintor, a professora Vera e muitos outros. Nicolina é a mais nova moradora. Certamente virão outros livros. Novos moradores irão enriquecer o universo literário da escritora.  Aguardemos.
 

( Publicado no jornal “Contraponto”. Paraíba, 03 a 07 de outubro de 2013). 

Nota: Tenho andado um pouco ausente. Prometo voltar com mais assiduidade. 

domingo, 17 de julho de 2016

Ricardo Azevedo: O poeta, o ilustrador e o Caderno Veloz
            

            Entre na minha casa
            não repare na nossa felicidade.
            Confesso que cheguei a duvidar que você vinha
            mas você veio.
            (Ricardo Azevedo. Caderno Veloz de anotações, poemas e desenhos)

            Com o livro “Caderno Veloz de anotações, poemas e desenhos” (Ed. Melhoramentos, 2015), Ricardo Azevedo ganhou o Prêmio de Melhor Livro de Poesia da FNLIJ. Estão presentes neste livro o desenhista, o ilustrador, o poeta, o prosador.

            No texto, “A liberdade do gesto, da imagem, da palavra”, inserido na última página do livro, o autor dá breves explicações sobre o seu fazer poético e artístico e afirma:
            “Tanto os poemas como as imagens do livro são, na minha cabeça, igualmente “textos’, ocupam o mesmo espaço dentro do trabalho, são autônomos, nasceram por conta própria, têm sua razão de ser e representam algo para ser lido e examinado.” (p. 79).

             Vamos acatar a sugestão do poeta/ilustrador: ler e examinar os poemas e as imagens do livro.  O caderno é veloz e cabe ao leitor seguir o ritmo do escritor.
            Na página 72, aparece a ilustração de uma moça com quatro olhos. A visualização dessa imagem provoca certo estranhamento. Se o leitor olhar atentamente para toda a figura, ela parece duplicada.  O olho duplo nos dá uma sensação de desconforto visual, é a presença do inusitado.    Na página 73, encontramos o poema referente a esta ilustração.  E o que diz o poema?


            “Começar e fazer e criar
e experimentar e recomeçar e refazer
e recriar e experimentar e repensar e rever
e recomeçar e refazer
[...]
O poema segue  repetindo os mesmos vocábulos. São 17 versos em uma única estrofe.  Os dois primeiros versos estão escritos no tamanho normal das letras, a partir do 3º e 4º. versos as letras vão diminuindo de tamanho e sempre nessa ordem – de dois em dois versos há diminuição no tamanho das letras. A duplicidade da escrita se associa à imagem do olhar duplicado.   Se partirmos para o lado semântico do poema, aí está explícito o trabalho do poeta – “fazer, criar, experimentar, recomeçar, refazer, recriar, repensar, rever.” Essas mesmas palavras se repetem por todo o poema.

 Na página 60, aparece a ilustração de dois homens. Um olha para o outro através de uma espécie de binóculo, embora estejam bem próximos. O poema da página seguinte (p.61) apresenta intertextualidades com poemas de poetas brasileiros. A primeira estrofe é uma reunião de versos recriados de Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Drummond, João Cabral de Melo Neto. De Manoel Bandeira há referência ao poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. Segue-se a primeira estrofe do poema:

“Apagaram as saudades que eu tinha da aurora da minha vida
Derrubaram as palmeiras e caçaram meus galhos
Destruíram o meio e o caminho com pedra e tudo
Mataram e comeram os galos que teceriam minhas manhãs
e, não contentes, espalharam endereços falsos de Pasárgada.” (p. 61)

O único texto em prosa está na página 31, é um amontoado de palavras sem nenhuma pontuação. O texto começa com a expressão: “Preciso contar o que aconteceu” e termina com a mesma expressão. Durante a leitura, pensamos em descobrir o que realmente aconteceu: O que foi? As possíveis respostas estão no próprio texto: “está tudo meio confuso”, “está tudo aqui entalado na garganta”. A ilustração para este poema em prosa representa o rosto de um homem duplicado – eu e o outro? E lembramos-nos dessa proposição – a poesia não é para ser compreendida, é para ser sentida. E Fernando Pessoa nos ajuda com o último verso do poema “Isto”: “Sentir? Sinta quem lê!”

“Caderno Veloz de anotações, poemas e de desenhos” é um livro instigante. Ricardo Azevedo explica que tanto os poemas como os desenhos foram feitos e refeitos durante alguns anos, alguns foram retirados de livros anteriores, como “Feito Bala Perdida e Outros Poemas” e as imagens a partir de 2013, mas as raízes são bem anteriores.

Minha admiração por livros de Ricardo Azevedo começou há muitos anos. Fiz uma resenha para a revista “Afinal” nos idos de 1990 de um livro que me foi enviado por Jorge Medauar – “Tá vendo uma velhota de vestido azul de bolinha branca no portão daquela casa ?” (Ed.FTD). A revista e o escritor Jorge Medauar desapareceram na poeira do tempo. O livro de Ricardo Azevedo foi reescrito e publicado posteriormente pela Companhia das Letrinhas. O texto foi refeito, novas ilustrações até o título mudou – “Uma velhinha de óculos, chinelos e vestido azul de bolinhas brancas”. O título pode ter ficado mais agradável, mas prefiro a 1ª edição, é uma “lembrança do mundo antigo” – “Havia jardins, havia manhãs naquele tempo !!!”   


            ( Texto publicado no jornal “Contraponto” – B-2. Paraíba, 15 a 22 de julho de 2016) 

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cobra Norato e outras miragens: mito, folclore e poesia

(Neide Medeiros Santos – Leitora Votante FNLIJ/PB)

Que é um mito? Uma narrativa de História fantástica, desfigurada pela credulidade, agindo no sentido do maravilhoso.
(Luís da Câmara Cascudo. Literatura Oral no Brasil).

 É um erro pensar que a literatura infantil não tem compromisso com a pesquisa, com a leitura de livros teóricos. No universo da literatura dirigida às crianças, encontramos muitos livros que revelam intertextualidade com os contos de origem popular, com a poesia de cordel.

A escritora Eloí Bocheco é apaixonada pela literatura oral e de cunho popular, muitas vezes a autora recorre aos livros de Câmara Cascudo para escrever seus textos destinados às crianças.  “Batata cozida, mingau de cará”, que integra essa linha de valorização do popular, foi premiado pelo MEC e integrou a coleção Literatura Para Todos.

Se fizermos um exame mais acurado na vasta produção da literatura infantojuvenil da autora catarinense, iremos nos deparar com outros títulos que estão intrinsecamente ligados às brincadeiras infantis, ao folclore, à tradição oral e citamos “Pomar de brinquedo”, “Cantorias de jardim”, “Tá pronto, seu lobo? e outros poemas”.
   
Em 2016, pela editora Habilis, Eloí publicou “Cobra Norato e outras miragens”, texto ilustrado por Dane D´Angeli, que vem comprovar mais uma vez o que afirmamos a respeito da recorrência aos temas folclóricos.  A autora foi buscar em Câmara Cascudo, Leonardo Boff e Carlos Rodrigues Brandão os elementos que deram suporte para escrever este livro - “em versos singelos, de sincera afeição” - as miragens que envolvem certas histórias ouvidas ou lidas na infância.
     
A respeito desse último livro, a autora afirma que há muito tempo acalentava o desejo de realizar esse sonho – “celebrar poeticamente algumas figuras do folclore brasileiro”, para isso recorreu às histórias guardadas na memória. 
 Dezessete poemas falam, através de versos, sobre elementos ligados ao folclore, às lendas, aos mitos de origem popular São poemas narrativos, contam uma história, como acontece com “Cobra Norato” e “Negrinho do pastoreio”.
    
“Cobra Norato” é o primeiro poema do livro. Câmara Cascudo registra essa história no livro “Geografia dos mitos brasileiros” e apresenta duas versões, explica que a origem desse mito é da região amazônica (Pará). Honorato ou Norato era ao nome do moço que durante o dia era cobra, em noites de lua cheia se transformava em moço bonito desejado pelas moças. Como sabia dançar bem o danado! No texto poético, ganha mais beleza:

Surgia nos bailes e
dançava até o amanhecer,
- “Quem é o belo cavalheiro?” –
as gentes queriam saber.

Um clima de mistério envolve o rapaz que ficava envaidecido com a curiosidade que despertava nas jovens.  Honorato tinha dois destinos – um de gente, outro de bicho. Era necessário descobrir esse mistério para Honorato voltar à forma humana.

“Negrinho do pastoreio” está registrado no livro de Câmara Cascudo como uma lenda tipicamente do Rio Grande do Sul. Em seis estrofes, Eloí resume a lenda em versos. Câmara Cascudo louva a tecedura admirável dessa lenda e considera-a de “intensa e comovedora ação dramática” Segue-se o poema de Eloí Bocheco:

Negrinho do Pastoreio
foi açoitado
por causa do cavalo
que sumiu no prado
no meio do formigueiro
seu corpo foi jogado.

            O que nos chama a atenção nesse poema é o poder de concisão, com apenas seis versos toda história do negrinho foi contada, seguem-se outras estrofes, mas o essencial está expresso com poucas palavras na primeira estrofe, é o poder inerente do poema - dizer o muito com poucas palavras.

Selecionamos esses dois poemas para demonstrar que as lendas e os mitos circulam pelo Brasil em diferentes versões. “Cobra Norato” está ligado à região amazônica, “Negrinho do pastoreio” ao Rio Grande Sul. Os mitos e lendas atravessam as fronteiras regionais.
  
“Cobra Norato e outras miragens” me levou ao encontro de “Guriatã: um cordel para menino”, do poeta pernambucano Marcus Accioly Os dois poetas, Bocheco e Accioly, se utilizaram das vozes dos folcloristas, pesquisadores, estudiosos da nossa cultura e das nossas raízes que alimentam o imaginário popular brasileiro para cantar em versos, com força poética esses mitos e as lendas.
   .
NOTAS PARAIBANAS
“A Scena Muda” e outras cenas.

Luiz Augusto Paiva da Mata publicou pela editora All Print em 2014 o livro “A saudade e outras manias do coração”, livro de contos, que teve a participação de Hérmany Menezes, responsável pelas fotografias e as ilustrações.  Nove contos integram a coletânea e todos trazem o resgate de um tempo que deixou as marcas da infância e da adolescência do contista. São contos memorialistas e chamou-nos a atenção o primeiro conto do livro – “A Scena Muda”.

Muitos leitores vivenciaram essa experiência relatada pelo autor. O cinema é o foco principal desse conto e a revista “A Scena Muda” o motivo condutor de toda trama.  Os fatos apresentados referem-se à fase infantil do contista. Sua vida de menino, amante do cinema, morando no interior paulista não era diferente do que vivenciou João Batista de Brito, colunista do “Contraponto”, em João Pessoa. Viveram em locais distintos, mas a “scena” apresenta semelhanças.
  
Quem não se lembra de uma irmã mais velha ou de uma tia que colecionava álbum com retratos dos artistas de cinema que faziam sucesso nos anos 1950/1960?  O contista traz de volta esse passado – a coleção de retratos de artistas famosos do mundo do cinema, como Errol Flynn, Gary Cooper, Ginger Rogers, Ava Gardner, Robert Taylor e muitos outros, pinçados da revista “A Scena Muda”, todos esses ídolos estavam pregados nas paredes dos quartos do menino Luiz Augusto e da irmã Elza.   

À noite quando ia dormir, as artistas desciam da parede e vinham conversar com o menino e as conversas imaginárias se prolongavam até o sono chegar. Elza também conversava com os artistas quando todos estavam recolhidos.

O pai, um militante do Partido Comunista, homem trabalhador e severo, não gostava das manias dos filhos. Reverenciar artistas de cinema! “Tudo aquilo era coisa do imperialismo americano”. A irmã era apaixonada por Errol Flynn, Luiz Augusto adorava Ava Gardner, não compreendia porque uma mulher tão bonita era maltratada pelo marido, Frank Sinatra. A artista Ginger Rogers era outra que habitava no seu coração.  A vida dos artistas fazia parte da vida do menino.
 
Veio a notícia de mudança, iriam morar em Taubaté, e com a mudança os retratos dos artistas foram rasgados pelo pai em um momento de irritação.  Para aumentar a tristeza dos filhos o pai ainda recomendou - na nova casa nada de retratos de artistas nas paredes.
  
Luiz Augusto é natural do Rio de Janeiro, passou parte da infância em São José dos Campos e Campos do Jordão, depois foi morar em São Paulo, atualmente reside em João Pessoa.
  
    (Publicado no jornal “Contraponto”. Caderno – B, Paraíba, 13 a 19 de maio de 2016).